Canto do escritor:
Sente-se e sinta-se à vontade!

sábado, 20 de agosto de 2011

Confessionários para almas em chamas (1ª parte)

Nos últimos anos tenho sobre mim o peso de uma cruz tão pesada. Cruz essa que não posso carregar e da qual eu também não consigo me livrar ou remir. Tudo o que posso fazer é esquece-la me sedando.

     A família do engenheiro civíl Theo é aquela que classificamos como tradicional, de tão tradicional é prosaica. É uma grande família feliz. Dez pessoas dividindo o mesmo lar, doce lar. A pedra angular, o alicerce que os mantem unidos é a fé, a religião que comungam.
    O aroma do  café da manhã harmoniza-se perfeitamente com o ar de  paz  reinante na casa. Todo este gozo tem seu ápice com os preparativos finais do casamento de Theo, o primogênito.
     De mãos dadas todos agradecem por mais um  dia e por todas as graças e dádivas. A oração enche todos os presentes com o sentimento de pureza espiritual e alegria.
    O noivo sempre atento e tranquilo dirige seu utilitário. Tem tanto a fazer, mas sempre anda sem pressa. Vive uma rotina exaustiva e hermeticamente planejada, para que no fim do dia, após rezar, consiga dormir o sono dos justos; dos filhos  de Adão que conseguem sobreviver graças ao suor produzido pelo esforço do trabalho árduo.
    Alguém atravessa a avenida  com o sinal ainda vermelho. O engenheiro não consegue desviar a tempo da colisão. O braço esquerdo é quebrado em três partes com o impacto. Consciente de tudo apesar da dor, é levado ao hospital municipal. Sentado na ambulância, apenas observa a paisagem da cidade entre gemidos abafados de dor. Vê um padre varrendo a frente de uma velha igraja gótica, a imagem lhe chama tanto a atenção que a coloca em um recanto especial de sua memória.
    Após ser examinado, drogado, engessado, Theo recebe alta. Desde o tempo de colégio não fica tanto tempo ocioso sobre uma cama. mesmo com toda a atenção dos parentes e amigos, ele passa muito tempo solitário em seu quarto. Entediado, no segundo dia de repouso, resolve transformar o cômodo em seu mais novo escritorio.
    Às dez da manha em ponto, Miro o capataz encarregado de auxiliá-lo, chega.
    - Dr., fizeram um belo estrago no senhor!- Miro é grandalhão, robusto por execesso de trabalho braçal e mesmo assim não há nada de rústico nele, ao contrário.
    Trabalham e trabalham. Quando o assunto que os une chega ao fim, após um breve momento de silêncio, abre-se a lacuna que ambos com muito esforço mantêm lacrada. Falam sobre as frivolidades de seus cotidianos, sobre as diferenças entre as religiões que cada um segue, mas terminam conversando sobre sexo. Não de maneira torpe, e sim de um modo  mais religioso. 
    Miro, o capataz é um respeitável marido e um excelente pai de família. É um homem de fé. Nunca passa mais de uma semana sem ir a igreja; Theo é um homem muito religioso, mais que Miro até. A fé que pratica é a sua própria maneira de viver. Nunca anda fora dessa linha, tanto que nunca se permite desfrutar dos prazeres da carne.
     As brasas de uma velha fogueira, já adormecida, que o capataz e o engenheiro têm em si volta muito mais intensa. Acontece entre os dois um olhar novo, um olhar cúmplice, um toque singelo dos dedos mínimos e um aperto de mão  tão intenso que o cheiro da alma de ambos mesclam-se em uma única fragrância.
    - Eu soube que o dr. vai se casar. É verdade?
    - Sim, semana que vem.
    - Parabéns. Eu acho.
    Sem perceber Theo pousa a mão sobre o coração de Miro que está a galopar, quase em fuga. Theo sente a vibração dos musculos do peitoral do Capataz. Quando se vê fazendo aquilo tenta retirar a mão, mas o outro o impede. Encaram-se na eternidade de alguns segundos. As alianças brilham antagonizando o sentimento novo deste dois homens.
    - Vamos fazer o combinado, eu fico daqui conectado à internet, e o senhor faz as monitorações, relatando cada  problema que houver para mim de imediato.
    Como uma ostra que fecha-se para guarda a preciosa pérola, as mãozonas encontram-se em um encaixe perfeito, isto é tudo que a coragem lhos permite fazer. E mesmo que conseguissem falar não saberiam o que dizer.
   - Preciso voltar ao trabalho agora dr., mas eu volto. Juro que volto. Até mais dr.
    Da janela de seu quarto o noivo vê o homem casado partir em seu carro. Então, a dor da culpa começa a corroê-lo por dentro na mesma intensidade que o desejo o queima.
    Com as mãos postas repassa mentalmente cada trecho bíblico que condena a homossexualidade, então busca conforto no único lugar que pode:
    - Óh, Pai Eterno, Tu que é monstruosamente misericordioso, livrai-me deste desejo que queima minha alma. Livrai-me desta terrível dor que carrego, já não posso me controlar. Ajude-me Pai, pois não tenho mais forças para conviver com a mentira do homem que me tornei. Que sou... Ajude-me eu te suplico, pois nao posso continuar me anestesiando para esconder de mim mesmo o que realmente sou... Meu coração, meu amor e minha alma são eternamente Teus. Toda honra e toda glória ao Teu nome para todo o sempre. Amém!
    Theo cai sobre a cama, chora ate esvair-se de si. Dorme o resto do dia.






Alonso do Andes

Um comentário:

  1. Muito bom.
    Excelente a sensibilidade como que o autor desenvolve a leitura.

    ResponderExcluir

Palpitaram...